LUIS FREITAS LOBO, crónica in www.expresso.pt Domingo, 22 de Fevereiro de 2009
Sporting-Benfica: 'inimigos necessários'
Lisboa, 1934. No início, era o dérbi. Sporting e Benfica são, como diria o pensador espanhol Manuel Vázquez Montalban de Barcelona e Real Madrid, "inimigos necessários".
Através dos tempos, o fenómeno futebol evolui, mas os mitos perduram. Mais do que as tácticas, fica o "conteúdo humano" que expressou cada época. Na Lisboa de outras eras, ainda no profissionalismo moderado, a lenda dividiu o "Sporting dos violinos" (Jesus Correia, Vasques, Travassos, Peyroteo e Albano) do "Benfica Europeu" (José Augusto, Águas, Coluna, Torres, Simões, Eusébio). Com o passar dos tempos, os jogadores foram-se tornando mais "terrenos". Bento, Humberto, Nené, Jordão, Damas, Yazalde e Manuel Fernandes. O esbater do preto-e-branco. João Pinto, Valdo, Futre, Jardel. O bom futebol, bem jogado, não é antigo ou moderno mas a principal vítima dos "novos tempos" é a memória. Quase todas as equipas no futebol actual parecem jogar em busca do terreno perdido. É uma ambição utópica. Porque as pessoas já não acreditam em heróis da mesma forma como no passado. Hoje aplaude-se mais facilmente o esforço do que o talento. Em cada equipa, cada jogador, em cada estilo, provoca sensações diferentes.
Quando Moutinho corre e arruma a "casa verde", luta e joga, "comendo a relva", tudo isso só pode vir de uma paixão que inspira a ponta das suas botas. Com ele, o público vai até ao "fim do mundo", comprometido com o jogo. Há jogadores que encarnam perfeitamente essa necessidade mitológica que o público sente do futebol. Talvez por isso causou estranheza começar a ver o Sporting jogar no Restelo e não vislumbrar em campo Moutinho. Estava doente. Após 98 jogos consecutivos, o pequeno "capitão verde" parou. Forçado.
Di María vai provocando os seus "pequenos terramotos" cada vez que entra. Levanta as orelhas, pega e arranca com a bola. Com ou sem Maradona a ver. Mas os olhares desde a bancada buscam novos heróis. Rui Costa está agora na tribuna e é curioso como nessa busca por mitos, a quem o adepto se possa agarrar emocionalmente, ele sinta necessidade de ir buscar heróis que já moram na bancada. Com tudo isto, a táctica, tinha de tornar-se para os jogadores (míticos ou terrenos) num primado do jogo. E, claro, tornou-se decisiva. Mostrou que, afinal, é uma ilusão pensar que o futebol é assim um jogo tão simples. É verdade que ele é feito de fintas, passes e remates. Mas o problema é que até para estes serem bem feitos e resolverem jogos, têm de ser executados pelo jogador no... local certo. E para estar no local certo é preciso ter... sabedoria táctica. A anarquia, o talento correndo sem um "mapa do jogo", nunca ganhou jogos por si próprio. E isto é só futebol.
Sporting e Benfica pensam o jogo de formas diferentes embora partindo da mesma "casa táctica" global: o 4x4x2. Têm formas diferentes de defender: o Sporting com os seus quatro defesas mais de perfil, Polga e o jovem Carriço pisando perto da área, sem fugir muito dela. O Benfica arriscando subir mais essa linha de "4", com Luisão e Sidney procurando afinar um jogo de dobras quando as bolas lhes caem nas costas.
A principal diferença está, porém, no desenho do meio-campo (o clássico e o losango) e na movimentação da dupla de ataque. O Sporting joga sempre numa clara dupla de avançados. Liedson e outro (Derlei, Djaló, Postiga...). O Benfica prefere, na estratégia habitual de Quique, um n.º9 típico e um n.º9,5, espécie de médio-ofensivo que vira segundo avançado (Aimar). No jogo "leonino" é mais comum ver um desses avançados ir buscar a bola num flanco. No jogo da 'águia' isso é mais raro. Movem-se mais pelo centro e nas alas surgem médios disfarçados de extremos (a explosão de Reyes) ou laterais a subir. Princípios diferentes que se cruzam. O segredo é esse tal "segundo homem" que acompanha a maior referência rematadora, ora saber recuar para a entrada da área, timing de passe, ora saber avançar para dentro da área, timing de remate. Pelo meio, tabelas e desmarcações. Em sentidos diferentes, Postiga (um avançado que dá dois/três passos atrás) ou Aimar (um médio que dá quatro passos à frente) são os que melhor interpretam em campo esses movimentos.
Lisboa, 2009. No fim, é o dérbi. Outra vez. E sempre. Porque eles eram, são, mais do que "inimigos". Eram, são, "irmãos". Necessários. Tão necessários como a bola para o jogo começar.
Sentir-se importante
Com classe, técnica e táctica, o Braga atropelou, sem pestanejar, o Standard Liège (3-0) e continua altivo na estrada da UEFA. É, no entanto, uma equipa com oscilações de motivação. Quanto mais forte o adversário, no campeonato, ou o estímulo competitivo, na relva internacional, mais cresce a equipa. E melhor joga. Diferentes estímulos, diferentes exibições. Fica a sensação de que os jogadores necessitam de se sentir importantes para explodir na total dimensão. Vários já estiveram em "grandes", há os emprestados, outros vivem perto mas sentem que é improvável lá chegar. São jogadores com um ego gigantesco que vivem, com revolta interna, na berma dessa élite. Por isso, sentem esses jogos como uma afirmação de personalidade.
Será uma explicação demasiado psicológica, mas uma equipa vive muito desses estados de espírito. O golão de Renteria, a tabela Alan-Luis Aguiar, dois movimentos, individuais e colectivos, que desenharam dois golos fantásticos de três jogadores incompreendidos no FC Porto.
A forma como Luis Aguiar recebe e decide o que fazer à bola perto da área adversária, é o exemplo perfeito do que é o tal médio "entre-linhas". O que faz o passe, remate ou finta no local que decide o jogo. Porque a bola anda por muitos lados mas é quando entra nesse espaço que abre mesmo os olhos e percebe que chegou a hora de alguém lhe ditar a sentença. É o que faz Luis Aguiar. Sentindo-se importante. Como toda a equipa, na rota da Europa.
14 x Nené: caça-golos
Descobrir um goleador no futebol actual, num local improvável, é quase como descobrir dos tesouros mais bem escondidos nos subterrâneos da relva. Na Madeira, Nené, visto sem grande entusiasmo no Brasil, tornou-se a "pérola goleadora do atlântico". Por cada golo que faz no Nacional, fala-se no seu futuro num clube de maior dimensão, onde possa continuar a marcar golos. É tudo tão precipitado como natural.
Fala-se muito nos avançados a partir da sua capacidade rematadora, mas acho que antes devia falar-se noutro ponto. Porque o fundamental para poder rematar é saber criar espaços para o fazer. O jogo de Nené tem virtudes que conciliam estas ideias: quando a bola se aproxima dele, sabe mover-se de frente ou de costas para a baliza, foge ao fora-de-jogo, primeiro, ao defesa, depois, e, quando gira, já só tem a bola à sua frente.
O resto é o remate. Melhor com o direito do que com o esquerdo. Mas, na origem, tem o mais difícil para ser um bom avançado: sabe fabricar espaços, à entrada ou dentro da área.
O jogo 'amarelo'
A questão assalta o FC Porto. Há vários jogadores importantes (Lisandro, Hulk, Rodriguez...) com quatro 'amarelos'. Se virem o quinto, falham o jogo seguinte, que parece sempre mais importante. Sussurra-se que devem poupar-se, cuidado com as entradas, não falar... No limite, fica na 'redoma' do banco. Mas é possível jogar tentando evitar um cartão amarelo? Em rigor, não. Fugir a lances de contacto é uma estratégia, mas, no fundo, tudo isso pode traduzir-se em fugir ao... jogo. É difícil ao treinador explicar essa diferença ao jogador. O segredo reside sempre na inteligência. Para marcar o golo mais fabuloso como para fugir a um simples amarelo. Estar em campo com a cabeça noutro local é o princípio para jogar no 'amarelo'. Mesmo que não o veja no final dos 90 minutos...