
COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DA CHEGADA DO HOMEM À LUA
40 anos da chegada do homem à Lua: Até onde será possível ir?
O grande problema com o Universo é a sua imensidão. Mesmo as sondas Voyager 1 e 2 da agência espacial norte-americana NASA, que descolaram de Cabo Canaveral em 1977, só recentemente (em 2004 e 2007, respectivamente) atingiram a antecâmara dos confins do nosso sistema solar - a zona, situada a uns dez mil milhões de quilómetros do Sol, onde a influência do vento solar começa a esgotar-se para finalmente ceder o lugar ao meio interestelar.
O grande problema com as naves e sondas espaciais actuais é que são muito lentas. Mesmo a velocidades que a nós nos parecem alucinantes - neste momento, a sonda Voyager 1, o objecto de fabrico humano mais afastado da Terra, é um bólide lançado a 17 quilómetros por segundo -, as Voyager demorariam mais de 70 mil anos a chegar aos subúrbios de Proxima do Centauro, a estrela mais perto do Sol, situada a pouco mais de quatro anos-luz de nós.
O grande problema com as naves tripuladas é, ainda por cima, o seu grande tamanho e peso (as Voyager pesam apenas 700 quilos; já uma nave do tipo da Enterprise da série Star Trek é outra história). E, se se tratasse de uma nave propulsada por motores convencionais, do mesmo tipo que os dos vaivéns norte-americanos, a NASA garante que a matéria do Universo todo não chegaria para fabricar a quantidade de combustível necessária! Claramente, as viagens tripuladas para o espaço extra-solar apresentam obstáculos aparentemente inultrapassáveis de ordem tecnológica.
Mas também não é possível esquecer um outro factor limitativo: o simples (ou, pelo contrário, muito complexo) factor humano, com as suas vertentes éticas, psicológicas, biológicas. Atravessar o espaço durante dezenas de milhares de anos implicaria o nascimento e morte de inúmeras gerações de seres humanos a bordo da nave espacial (a título comparativo, estimase que a nossa espécie tenha surgido na Terra há 200 mil anos), com todas as implicações que isso tem em termos de sustentação alimentar, riscos da permanência prolongada no espaço. A alternativa seria desenvolver tecnologias que pudessem manter os tripulantes num estado de vida suspensa durante toda a viagem.
Para mais, continuando com o exemplo de Proxima do Centauro, viajar para aquela estrela nem sequer constituiria um objectivo adequado, pois ela não tem planetas à sua volta susceptíveis de suportar a vida tal como a conhecemos... Aliás, ainda não foi descoberto nenhum planeta parecido com o nosso em torno de uma estrela. É verdade, porém, que os esforços para procurar "pontinhos azuis" como a Terra têm redobrado nos últimos tempos (nomeadamente com o lançamento pela NASA, em Março deste ano, do telescópio espacial Kepler) e que os especialistas estão bastante optimistas quantos às hipóteses de virmos a encontrá-los. Mas o que isto quer dizer é que será sem dúvida preciso olhar para muito mais longe do que alguns anos-luz de distância para encontrar estrelas que possuam planetas habitáveis.
Quanto a visitar outras galáxias, mesmo as mais próximas da nossa Via Láctea... A galáxia Andrómeda fi ca a dois milhões de anos-luz de nós: mesmo a luz, a coisa mais rápida que há segundo a Teoria da Relatividade de Einstein (300 mil km por segundo no vácuo), demora dois milhões de anos a cobrir essa distância! E a galáxia anã Canis Major, que está mais próxima de nós do que nós próprios estamos do centro da nossa galáxia, encontra-se apesar de tudo a 25 mil anos-luz do sistema solar, o que ainda é abissal. Parece impossível - hoje, amanhã, ou em qualquer outro dia do futuro próximo ou longínquo - que um ser humano possa percorrer distâncias dessa ordem, vencendo o espaço e o tempo.
Cientistas visionários
Apesar de todos estes factos, nem todos os cientistas estão dispostos a abandonar o sonho. Isto não quer dizer que considerem que as viagens interestelares tripuladas sejam possíveis, mesmo no longo prazo - elas ainda são claramente do domínio da ficção científica. Mas o que signifi ca é que estão dispostos a deixar de lado os seus preconceitos - a favor ou contra - e a tentar avaliar se poderia eventualmente, hipoteticamente, vir a ser um dia possível inventar motores espaciais radicalmente diferentes dos actuais, que tornem as viagens interesterales ou intergalácticas praticáveis. Haverá maneira de criar novos sistemas de propulsão, totalmente inéditos do ponto de vista físico, capazes de converter a energia presente no vácuo do espaço directamente em força motora, dispensando assim o combustível?
Marc Millis, da NASA, que de 1996 a 2002 dirigiu o programa Breakthrough Propulsion Physics daquela agência espacial - criado justamente para estudar sistemas de propulsão "revolucionários" que por inerência necessitariam de um avanço fundamental na área da Física para se tornarem realizáveis -, é um deles. Millis é uma autoridade mundial em métodos de propulsão avançados e investigou, quando a NASA financiava aquele projecto, a possibilidade de desenvolver sistemas ditos de propulsão espacial (space drives), que utilizariam "as propriedades fundamentais da matéria e do espaço para criar a força motora, prescindindo assim de transportar e utilizar carburante", lê-se no site da NASA. Coisas com nomes estranhos como "propulsão diamétrica", "propulsão disjuntiva", "vela diferencial". Solicitado por email, Millis expôs as suas convicções pessoais: "Independentemente do c facto de sabermos se a Humanidade conseguirá ou não viajar para as estrelas", disse-nos, "é imperativo tentarmos fazê-lo. No longo prazo, é a sobrevivência da Humanidade que está em jogo. Temos de nos preparar para o dia em que a Terra se tornar inabitável. Sabemos que a nossa espécie se vai extinguir dentro de mil milhões de anos, mas entretanto os riscos de sermos atingidos por um asteróide, de erupções cataclísmicas, do aquecimento global, de guerra, etc., podem aproximar o fi m. Não enfrentar o problema seria socialmente irresponsável. Quanto ao curto prazo, vamos aprender mais coisas a tentar resolver o problema do que a não fazer nada." E acrescenta ainda: "Devo dizer que acho o tema muito atraente. Isto é que são as coisas fascinantes, muito mais interessantes que o desporto."
Mais depressa que a luz
Mas o que dizer da duração das viagens? Para ultrapassar este outro grande obstáculo, seria preciso atingir velocidades de cruzeiro muito mais elevadas - e, idealmente, superiores à da luz. Só que, para isso, será preciso contornar o limite teórico da velocidade da luz (a teoria de Einstein estipula que nada consegue deslocarse mais depressa), mexendo directamente no próprio tecido, na estrutura do espaço-tempo, para fazer avançar as naves. Um desses sistemas de propulsão, totalmente hipotético, que cientistas como Millis estão a estudar, é o chamado warp drive, que consiste em comprimir o espaço-tempo à frente de um objecto e expandi-lo detrás, fazendo com que seja o próprio espaço-tempo a deslocar-se, arrastando a nave com ele. Assim, dentro da sua "bolha" de espaço- tempo local, a nave continuaria a andar a velocidades inferiores à da luz, o que é compatível com a teoria de Einstein - mas, acrescentada à velocidade da "bolha", a sua velocidade acabaria por ser superior à da luz (numa espécie de efeito "tapete rolante", segundo a expressão do próprio Millis). A ideia provém, por incrível que pareça, da famosa série televisiva Star Trek, onde um sistema semelhante permite que a nave Enterprise percorra distâncias inimagináveis num piscar de olhos. Uma outra forma de viajar mais depressa do que a luz consistiria em aproveitar os chamados wormholes, hipotéticos "túneis" que funcionam como atalhos, ligando entre si dois pontos do espaçotempo muito afastados um do outro.
Muito recentemente, Millis publicou, em coautoria com Eric Davis, do Instituto de Estudos Avançados de Austin, um compêndio de cerca de 700 páginas intitulado Frontiers of Propulsion Science, que faz o ponto científi co da situação. Numa entrevista à revista Wired em Maio, afi rmava a propósito do livro que, "tendo visto vários investigadores a defrontarem-se com o desafi o dos voos espaciais revolucionários, tornou-se claro que a comunidade precisava de uma obra de referência sobre o estado e as oportunidades da investigação. Havia demasiado 'ruído' e pouco 'sinal'; era óbvio que os aspectos facilmente exploráveis, em termos sensacional i s t a s , d a pesquisa em torno dos voos interestelares estavam a difi cultar a comunicação dos aspectos mais sérios por detrás dos trabalhos".
Segundo Millis, é preciso dedicar mais esforços à tarefa de interligar os resultados de qualidade, publicados em revistas científi cas sérias, mesmo que sejam muito modestos e prestar menos atenção a resultados mais sensacionalistas que, para ele, não passam de "campanhas de marketing". É essencial ligar os "objectivos ideais" dos voos interestelares aos "pormenores físicos reais". Só desta forma é que, no seu entender, talvez seja possível um dia construir naves interestelares que tornem as viagens praticáveis. Uma atitude razoável, que consiste em admitir que o que se pretende poderá ser completamente descabelado, mas que não é por isso que devem ser abandonadas a metodologia e a objectividade intelectual que caracterizam o método científi co. "O que temos de fazer hoje", diz-nos ainda, é abordar as questões mais cruciais para desbravar o caminho para futuros progressos. O simples facto de determinar as 'melhores' questões já representa em si um desafio."
"The right stuff "
Podemos também perguntar: será que, do ponto de vista humano, existe uma right stuff para este tipo de viagens? Há ou haverá um dia pessoas dispostas a empreender uma viagem que provavelmente será "só de ida", pelo menos numa primeira fase? "Não há uma resposta simples para esta pergunta", frisa Millis. "As implicações sociais são demasiado gigantescas. Acho que haveria suficientes pessoas interessadas num viagem só de ida, mas gostava de ver os resultados de um inquérito sobre esta questão." Uma coisa que Millis acha que poderia suscitar um entusiasmo renovado pelas viagens interestelares seria a descoberta de um planeta semelhante ao nosso num outro sistema solar: quando isso acontecer, "as pessoas vão começar a perguntar 'como é que vamos lá?'"
Seja como for, é um facto que existe uma alternativa mais comportável, a todos os níveis, às viagens tripuladas. Essa alternativa consiste em enviar para estrelas e galáxias distantes sondas como as Voyager, Pioneer e outras, cada vez mais sofi sticadas, capazes de recolher dados, efectuar experiências e comunicar os seus resultados à Terra (tais respostas só chegariam dentro de milhares de anos, claro). Estas duas aventuras - a humana e a robotizada - não se excluem mutuamente; pelo contrário, são consecutivas. "É só uma questão de etapas", diznos ainda Millis. "Logicamente, as viagens tri puladas deverão acontecer muito tempo depois das missões de sondas robotizadas, que por sua vez deverão acontecer muito tempo depois de terem sido feitas, muito metodicamente, muitas observações do espaço longínquo."
No fundo, já é possível "viajar" para mundos distantes de forma virtual, olhando ao pormenor para os confins do Universo, graças a potentes telescópios como o Hubble e o Kepler e a observatórios espaciais como os satélites Herschel e Planck, lançados em Maio pela agência espacial europeia ESA. De facto, a primeira etapa da grande aventura da exploração do espaço já está em curso.
O envio de sondas para locais muito longínquos permitiria ultrapassar, pelo menos em parte, um outro grande obstáculo material à exploração de estrelas e galáxias: o do dinheiro necessário para financiar tais empreendimentos. "O custo actual das viagens interestelares é muitíssimo elevado, excepto para os engenhos muito pequenos", diz-nos por email Timothy Ferris, ex-jornalista, autor de livros e fi lmes sobre o Universo - e que é também o homem por detrás da escolha do conteúdo dos célebres "discos dourados", que incluem música, sons e imagens da Terra e que foram enviados para o espaço há 30 anos, a bordo das sondas Voyager, como mensagem para um eventual encontro com uma civilização extraterrestre avançada. "Esta situação poderá alterar-se no futuro graças aos progressos tecnológicos ou às economias emergentes (este segundo elemento costuma ser subestimado). Não pretendo saber quais serão as tecnologias disponíves dentro de séculos." Ferris também não duvida, nem por um instante, de que um dia, muito longínquo, os humanos hão-de conseguir viajar para as estrelas e para as galáxias.
Quanto a Millis, como já se percebeu, ele não rejeita a ideia de que a ficção científica possa servir de inspiração à investigação científi ca. "Gosto do poder imaginativo da fi cção científi ca", responde-nos. "Acho que é ao mesmo tempo uma fonte de inspiração e uma ferramenta para a geração de ideias radicalmente novas. E isso vale mesmo quando as descrições fi ccionais não fazem sentido, porque estimula o raciocínio e a vontade de perceber como é que as coisas poderiam realmente funcionar." De facto, a fi cção científi ca é, por enquanto, para o comum dos mortais, a melhor maneira de viajar para outros mundos, do outro lado do Universo. Confortavelmente instalados(as) num sofá, entregues ao sonho.
Como Nixon ganhou a Lua
Dos três presidentes que já ocuparam a Casa Branca desde o início do projecto Apolo, o Presidente Nixon foi quem teve menos responsabilidades neste imenso programa. Foi o Presidente Kennedy quem deu início a este esforço e conseguiu obter o apoio do Congresso e do público para o objectivo de realizar uma viagem tripulada à Lua antes do fim da década.
Primeiro como vice-presidente e depois como Presidente, Lyndon B. Johnson foi o maior apoiante do programa a nível político e o seu mais incansável defensor. No entanto, devido a um acidente do calendário, é o Presidente Nixon que ocupa o lugar de dirigente máximo da nação, agora que se aproxima o momento em que se vai concretizar o sonho para o qual os seus dois predecessores trabalharam tão afincadamente com o apoio do Congresso."
O tom de ressentimento do editorial do jornal New York Times de dia 19 de Julho de 1969, faz hoje 40 anos, é indisfarçável. A Lua era uma ideia de Kennedy, uma vitória política de Kennedy e de Johnson, um mérito dos democratas, e agora vinha este homem colher indevidamente os louros do trabalho dos outros. O "acidente de calendário" de que fala o Times tinham sido as eleições presidenciais dos Estados Unidos da América de 1968, onde Nixon tinha batido o democrata Hubert Humphrey e o candidato independente George Wallace.
Nixon estava na Casa Branca desde 20 de Janeiro de 1969 e era natural que tentasse cavalgar aquilo que era, na altura, o mais ambicioso programa nacional desde o lançamento do projecto Manhattan. Não que Nixon gostasse do programa espacial.
O programa Apolo representava muito daquilo que Nixon detestava: a sua derrota (tangencial) frente a Kennedy em 1960 tinha sido atribuída pelos gurus da época à sua má prestação televisiva, ao seu ar envelhecido frente a um John Kennedy pujante de juventude e arrojo, ao seu papel como vice-presidente de Eisenhower e ao facto de essa Administração ser apresentada como aquela que permitiu que a tecnologia militar soviética ultrapassasse os EUA - o famoso "missile gap" que se viria a saber anos mais tarde que afinal não existia. O programa Apolo era a juventude e o atrevimento de Kennedy e tinha sido lançado para recuperar, nesta área de interesse militar evidente, a supremacia tecnológica que, supostamente, ele, Nixon, e Eisenhower tinham feito com que a América perdesse.
Ultrapassar os soviéticos
A promessa de Kennedy tinha sido feita numa comunicação apresentada às duas câmaras do Congresso reunidas em sessão conjunta em 25 de Maio de 1961 e era intitulada "Mensagem especial ao Congresso sobre necessidades nacionais urgentes". O espaço era apenas uma delas (o ponto 9 da comunicação), mas foi a que marcou o discurso. Aí o jovem Presidente defendeu que o país se comprometesse a alcançar o objectivo, "antes do fi m da década", de "pôr um homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra são e salvo".
O projecto era mais que um projecto científico e tecnológico: era uma resposta à vitória soviética de Iuri Gagarin, que apenas um mês e meio antes se tinha tornado o primeiro homem a orbitar a Terra; deveria limpar a vergonha da fracassada invasão da Baía dos Porcos (Cuba), um mês antes; e apagaria até a mancha da vitória do Sputnik, o primeiro satélite artificial lançado em 1957 pela URSS, "capaz de vigiar os americanos a partir do espaço", que os Estados Unidos nunca tinham conseguido engolir. E marcaria certamente a recuperação militar da América - que a propaganda soviética tinha conseguido convencer da sua ultrapassagem.
Para a Casa Branca - fosse qual fosse o seu ocupante -, o programa Apolo só acessoriamente é que teve a Lua como objectivo. Quando Kennedy diz no seu discurso de 1961 "I believe we should go to the moon", os seus objectivos continuam a ser o público americano e a União Soviética.
Uma gigantesca operação de relações públicas e uma gigantesca competição com os soviéticos, destinada a garantir vitórias de propaganda e vantagens militares reais, no domínio da tecnologia e do território.
Numa gravação de uma conversa tida na Casa Branca com o director da NASA, James Webb, Kennedy explica-lhe que o programa Apolo, por muito que se diga isso em público, não tem um objectivo científico: "O meu objectivo não é a ciência", diz Kennedy. "Acho que a ciência é uma coisa boa, acho que devemos saber mais e estamos prontos a gastar quantidades de dinheiro razoáveis para isso. Mas [no programa Apolo] estamos a falar de uma quantidade de dinheiro fantástica, que vai deitar abaixo o nosso orçamento e vai pôr em causa todos os nossos programas internos. A única justifi cação para isso, na minha opinião, (...) é temos a possibilidade de os derrotar." Eles. Os russos. Sempre os russos. O programa Apolo era uma demonstração da capacidade da América no plano científi co, tecnológico, industrial, económico, de decisão, de organização, mas era, acima de tudo, uma demonstração de força, da superioridade estratégica dos EUA.
E foi essa razão que manteve o programa no orçamento ao longo de três administrações e do gasto de 20 a 25 mil milhões de dólares (de 1969).
Esquecer o Vietname
Não havia razão para Nixon morrer de amores pelo programa Apolo, mas abraçou-o com unhas e dentes porque era politicamente impossível não o fazer agora que a Lua estava tão perto e já se tinham gasto verbas tão imensas, porque precisava de uma vitória política, porque precisava de alguma coisa que desse um sentimento de unidade a um país profundamente dividido pela guerra do Vietname e, principalmente, porque precisava de desviar as atenções do confl ito, que provocava então a morte de centenas de soldados americanos por semana no teatro de guerra e era causa de manifestações de milhões nos EUA.
Apesar de tudo, como confessava num artigo publicado em 1989 o cronista William Safire, que era em 1969 um dos autores dos discursos de Nixon, o que ninguém esperava na altura era a violência das críticas pelo facto de o Presidente ir falar ao telefone com os astronautas e de ter assinado com o seu nome uma placa que iria ser deixada na Lua, aparafusada a uma das pernas do módulo lunar.
"Sobre este pano de fundo", continuava o editorial de New York Times de 1969, "a tentativa do senhor Nixon de partilhar o palco com os três corajosos tripulantes da Apolo 11 quando eles chegarem à Lua parece-nos absolutamente imprópria". O texto continuava referindo a tentativa feita pela Casa Branca de organizar um jantar entre o Presidente e os astronautas na véspera da partida - o que foi proibido pelo responsável médico da missão, devido aos riscos de contágio dos astronautas, submetidos a uma rigorosa quarentena - e criticava, fi nalmente, a ideia do telefonema de Nixon aos astronautas, que se realizou como previsto, pelo facto de ("para além de objecções que se podem levantar por uma questão de bom gosto") o telefonema ir roubar tempo ao extremamente apertado programa de actividades que os astronautas tinham de cumprir nas duas horas e meia que estariam na Lua. "O Presidente vai reduzir ainda mais este tempo, extremamente precioso, com uma conversa desnecessária. Uma tal interferência parece-se de uma forma suspeita com os golpes publicitários do tipo daqueles que [o primeiro-ministro soviético] Khrushchov gostava de levar a cabo. Tudo isto nos parece indigno do Presidente dos Estados Unidos." O remate do texto é brutal, com o supremo insulto da referência a Khrushchov e a acusação de indignidade.
O Washington Post não iria ficar atrás, criticando Nixon por assinar a placa como se o programa Apolo fosse um vulgar projecto de obras públicas.
Ele tinha um discurso
Segundo Safire, Nixon não se deixou intimidar pelas críticas, a que tinha aprendido a habituarse, e sabemos que o telefonema teve lugar ("o telefonema mais histórico jamais feito da Casa Branca", nas palavras de Nixon, que nunca foi um poeta). Mas o agente de ligação que a NASA colocou na Casa Branca, o astronauta Frank Borman, que tinha comandado a missão Apolo 8, contaria anos mais tarde num documentário televisivo que no dia da alunagem, 20 de Julho de 1969, teve de convencer Nixon a não ler aos astronautas um discurso que o Presidente tinha escrito, argumentando que isso poderia dar a ideia de que estava a tentar ocupar um lugar que teria cabido por mérito a J.F.K.. O mesmo J.F.K. que fez rebaptizar Cabo Canaveral como o Cabo Kennedy de onde tinha partido a Apolo 11...
Apesar de tudo, a verdade é que o domingo de 20 de Julho de 1969 foi em todo o mundo o dia da América, do programa Apolo, dos astronautas, mas foi também o dia de Nixon. A placa de aço inoxidável que ainda está no Mar da Tranquilidade, aparafusada por trás da escada do módulo lunar Eagle, tem a sua assinatura e o seu nome e a sua marca. Discreta, mas tem a sua marca.
A placa diz, em maiúsculas:
Here men from the planet Earth
first set foot upon the moon
July 1969 A.D.
We came in peace for all mankind
(Aqui, homens do planeta Terra/ puseram os pés na Lua pela primeira vez/ Julho 1969 A.D./ Viemos em paz em nome da Humanidade)
Semântica na placa
A proposta de mensagem original veio da NASA e a segunda linha dizia "first landed on the moon" ("aterraram pela primeira vez na Lua"). O problema é que os americanos suspeitavam de que os soviéticos já tinham enviado uma sonda à Lua e não estavam certos de poder reclamar a primeira "aterragem" ou "alunagem". Daí a popular mas algo estranha expressão "set foot" que, segundo conta Safi re, foi uma ideia de Pat Buchanan, então conselheiro da Casa Branca. Safire, por seu lado, propôs alterar a quarta linha cuja redacção inicial era "We come in peace for all mankind".
"'We come in peace' ('Vimos em paz') parecia- me o tipo de coisa que se diz aos índios num fi lme de Hollywood", escreve Safi re. "Pelo menos mudem o tempo do verbo, disse eu, para que não pareça que nos estamos a dirigir aos habitantes da Lua.
E alterou-se para 'came in peace' ('Viemos em paz')."
Mas não foram essas as únicas alterações.
Nixon, um Quaker devoto, queria acrescentar "under God" depois de "peace" mas Julian Scheer, responsável das Relações Públicas da NASA, resistiu à proposta da Casa Branca, argumentando que a agência especial não devia benefi ciar nenhuma crença religiosa. A discussão foi-se arrastando até que Scheer cedeu... quando sabia que já era impossível mudar a placa, fixada no módulo lunar. "Pensei que naquela altura ninguém se ia sequer lembrar disso, com a excitação dos últimos preparativos", escreverá Scheer mais tarde.
Mesmo assim, a Casa Branca conseguiu meter Deus na primeira placa que os homens deixaram na Lua: o A.D. que se segue à data, Anno Domini, Ano do Senhor. Ainda Safire: "Deixámos 'Julho 1969 A.D.' porque achámos que era uma maneira astuciosa de meter Deus à socapa." A divina ironia (um sinal de que Deus não gosta de ser passageiro clandestino?) aconteceu porque o A.D. deve sempre preceder a data e nesta placa aparece depois. A ironia é tanto maior quanto William Safire, que assinou durante anos a coluna "On Language" no New York Times, é uma das maiores autoridades dos EUA em língua inglesa.
O outro Kennedy
Mas o dia 20 de Julho de 1969 foi uma vitória de Nixon por outra razão, que nada teve a ver com a Lua e da qual pouca gente se lembra hoje, mas que moldou de forma decisiva o panorama político americano: o chamado "incidente de Chappaquiddick". Foi no mesmo dia que os astronautas da Apolo 11 chegaram à Lua que as agências noticiaram um estranho acidente de viação, ocorrido na primeira hora do dia anterior, envolvendo um carro conduzido pelo senador Edward Kennedy, que mergulhou num canal causando a morte de uma colaboradora de Kennedy chamada Mary Jo Kopechne, que ia sozinha com ele no carro. O acidente ocorreu depois de os dois saírem de uma festa, na ilha de Chappaquiddick, e houve dúvidas quanto ao facto de o condutor poder estar embriagado ou ter conduzido de forma imprudente. Mas o que causou uma comoção nacional foi a constatação de que o senador, por razões que nunca conseguiu explicar, tinha conseguido sair do carro antes de este se afundar mas não tinha comunicado imediatamente o acidente às autoridades, impedindo uma pronta intervenção que talvez pudesse ter evitado a morte de Kopechne. O escândalo que se seguiu ao incidente de Chappaquiddick impediu Ted Kennedy de se candidatar à presidência em 1972 e era uma das razões para o bom humor exibido por Nixon no dia da alunagem. A Lua podia pertencer por direito próprio a John Kennedy, mas era evidente que a Casa Branca tinha acabado de escapar por entre os dedos de outro Kennedy. "O facto de isto ter acontecido precisamente hoje pode fazer com que seja ainda mais signifi cativo", disse Nixon a Safi re num telefonema nessa noite. "Especialmente porque toda a gente tem estado a tentar transformar o dia de hoje num dia Kennedy. Há coisas estranhas..."
A "cura do cancro"
Que o programa Apolo mostrou outra forma de fazer política, mobilizando o público e os especialistas para a conquista de alvos difíceis, é inegável. Em 1971, no seu discurso do Estado da União, Nixon tentou imitar Kennedy e apontou desta vez a cura do cancro como o novo grande objectivo da nação: "O mesmo tipo de esforço concentrado que conseguiu cindir o átomo e levou o homem à Lua deve ser dirigido para a conquista desta terrível doença."
A grande diferença é que nenhum guru da medicina considerava isso possível nessa altura, mas ninguém estava interessado em desiludir o Presidente e paralisar o enorme fluxo de fundos que iriam ser disponibilizados.
Apesar do exemplo falhado da "cura do cancro", o programa Apolo mantém-se, a par do projecto Manhattan, como um dos grandes exemplos de sucesso na utilização da ciência ao serviço do Estado, se não da comunidade. E o próprio actual Presidente dos EUA, Barack Obama, defendeu repetidamente, ao longo da sua campanha, "um projecto Manhattan, um projecto Apolo para a energia limpa".
O projecto Apolo pode ter conseguido menos do que prometeu. As coisas que conseguiu podem não ter tido a utilidade que se sonhou. O seu custo pode ter sido mais elevado do que alguma vez se imaginou e pode ter desviado fundos de outros projectos mais importantes. Mas continua, até hoje, a ser sinónimo de eficácia. Afinal, o homem pôs mesmo o pé na Lua, não pôs?
Fonte: publico.pt